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O medicamento 100% brasileiro: Acheflan

Antonio Lucas Oscar da Penha de Mattos¹, Bruna Pires Rodrigues¹, Carolina Souza Rabelo Ferreira¹, Filipe Henrique Souza², Higor Tavares Guimarães³, Isabele Rumblesperger Gomes¹, Mitzy Stephanny Machado, Pedro Henrique de Castro Silva

¹Graduandos do curso de Enfermagem (UFSJ-CCO)

²Graduando do curso de Medicina (UFSJ-CCO)

³Graduando do curso de Bioquímica (UFSJ-CCO)

 ⁴Graduandos do curso de Farmácia (UFSJ-CCO)

v.1, n.1, 2023
Setembro de 2023

Produtos naturais, principalmente oriundos de plantas, minerais e animais, têm sido amplamente utilizados para tratar várias doenças desde tempos remotos. Tais substâncias já são usadas como remédios por pessoas desde milhares de anos antes de Cristo e, ao longo de muitos séculos, determinadas plantas medicinais e microrganismos foram as principais fontes de medicamentos. 

Existem vários tipos de extratos de plantas e compostos isolados de plantas que têm sido usados com sucesso para tratar várias doenças graves. São exemplos importantes de espécies vegetais a maconha (Cannabis sativa) e a papoula (Papaver somnniferum), ambas cultivadas há mais de 4.000 anos. Desta última espécie, por exemplo, em 1806, Friedrich Serturner isolou o alcalóide morfina[1] (presente atualmente em medicamentos para alívio da dor intensa), o que desencadeou uma busca contínua por outros medicamentos derivados de plantas. Em 1824, Pierre-Jean Robiquet isolou a codeína [2] (utilizada em formulações para alívio da dor moderada e/ou tratamento de tosse irritativa e seca). Também da papoula, em 1848, George Merck Fraz isolou o alcalóide antiespasmódico papaverina (usado por exemplo para aliviar a dor nas contrações não voluntárias de músculos) da mesma planta [3].

 

Entre os muitos outros importantes princípios ativos isolados de plantas medicinais estão a atropina (muito útil para dilatar a pupila possibilitar que o médico oftalmologista realize os exames de fundo de olho, além de servir como antídoto para intoxicação por determinados inseticidas), isolada da Atropa belladonna por Mein em 1831 [4]; a cafeína (estimulante do sistema nervoso central), obtida por Runge em 1820 do Coffea arabica[5]; a digoxina (utilizada para auxiliar a regular o ritmo dos batimentos do coração e tratar a insuficiência cardíaca), isolada por Claude-Adolphe Nativelle em 1869 da Digitalis lanata [3] e a curare (relaxante muscular), isolada por Winstersteiner e Dutcher em 1943 da planta sul-americana Chondrodendron tomentosum [6,7]. 

 

Dentre os compostos ativos isolados de planta para uso medicinal, merece destaque o obtido por um professor e pesquisador brasileiro chamado João Batista Calixto, que culminou no lançamento da pomada anti-inflamatória Acheflan®, da Aché Laboratórios Farmacêuticos. João Calixto é biólogo pela Universidade de Brasília (1973), Mestre (1976) e Doutor (1984) em Farmacologia pela Universidade de São Paulo - Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Atualmente aposentado da função de professor de Farmacologia da Universidade Federal de Santa Catarina, Calixto é diretor do CIEnP, um centro com padrão internacional para o desenvolvimento de pesquisa pré-clínica para novos medicamentos e vacinas.

 

Dada sua relevância para a ciência nacional, tendo inaugurado um novo capítulo na história da indústria farmacêutica brasileira e internacional, o professor Calixto é pesquisador no nível mais elevado do CNPq (1A) e membro da Academia Brasileira de Ciências.

O Acheflan® foi o primeiro fitomedicamento (medicamento derivado de espécie vegetal) 100% nacional que se estabeleceu dentro do cenário de maior produção de medicamentos dos últimos anos. Esta pomada fitoterápica é oriunda da planta que pertence à família Boraginaceae, que inclui a espécie vegetal Cordia verbenacea, também conhecida como Cordia curassavica ou erva baleeira (Figura 1). 

 

No óleo que pode ser obtido da Cordia verbenacea estão presentes estruturas químicas de moléculas chamadas alfa-humuleno e trans-cariofileno, que possuem atividade anti-inflamatória. Devido a essas substâncias é que foi possível o desenvolvimento da pomada com propriedade de combate à inflamação.

O uso do medicamento é recomendado para adultos, visando tratamento local de processos inflamatórios, como tendinites e dores musculares, além de problemas inflamatórios dolorosos causados por entorses, traumas e contusões de membros. Acheflan® deve ser aplicado no local da dor, sobre a pele íntegra (sem feridas) três vezes ao dia, pelo período de tempo recomendado pelo médico[7]. 

No entanto, apesar de ser medicamento derivado de plantas, não está isento de oferecer      

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Figura 1: Cordia verbenacea (erva baleeira)

Fonte: Plantnet

efeitos indesejados a quem o utilizar de maneira indevida ou for alérgico aos componentes que fazem parte de sua constituição, por exemplo. Contudo, felizmente, a própria bula do medicamento menciona que raramente ocorrem reações adversas, sendo a sensibilidade no local a mais comum [8].

O Acheflan® é um marco para a pesquisa brasileira pois foi o primeiro medicamento a ser desenvolvido 100% no país, desde as pesquisas iniciais até o produto final. Pavimentou um caminho que permitiu o avanço de política nacional de incentivo ao setor, resultando em mais produtos, o que fortalece a economia e a ciência do Brasil. O próprio professor Calixto participou do desenvolvimento do creme antirrugas Cronos (Natura) e do medicamento Sintocalmy (Aché) [9].

Referências Bibliográficas

[1] Schmitz R. Friedrich Wilhelm Sertürner and the discovery of morphine. Pharm His. 1985; 27(2):61-74.

[2] Wisniak J. Pierre-jean robiquet. educación química. 2013;24:139-149.

[3] Calixto JB. The role of natural products in modern drug discovery. Anais da Academia Brasileira de Ciências. 2019;91:15-17.

[4] Behcet AL. The source-synthesis-history and use of atropine. Eurasian J Emerg Med. 2014;13(1):2.

[5] Waldvogel SR. Caffeine—A drug with a surprise. Angewandte Chemie Int. 2003;42(6):604-605.

[6] Calixto JB, Siqueira Junior JM. Desenvolvimento de medicamentos no Brasil: desafios. Gazeta Médica da Bahia. 2008; 78(1): 1-4.

[7] Oliveira AD et al. Perfil de segurança de formulação anti-inflamatória tópica de Cordia verbenacea: dados de mundo real Safety profile of Cordia verbenacea topical anti-inflammatory formulation: real world data. Braz J Health Rev. 2021;4(6):27600-27613.

[8] ACHEFLAN: Creme - Bula. Disponível através do link: https://www.ache.com.br/arquivos/BU_ACHEFLAN-CREME_ACHE_JUL2012.pdf. Acesso em: 01 set. 2023.

[9] Reis A. Centro de Ciências Biológicas homenageia João Batista Calixto com Prêmio Destaque Pesquisador UFSC 50 Anos. Disponível através do link: https://noticias.ufsc.br/2010/12/centro-de-ciencias-biologicas-homenageia-joao-batista-calixto-com-premio-destaque-pesquisador-ufsc-50-anos-2/. Acesso em: 01 set. 2023.

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