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Entrevista:
Luiz Orlando Ladeira

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LUIZ ORLANDO LADEIRA

Graduado em Física pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mestre em Engenharia Metalúrgica e doutor em Física pela mesma instituição, realizou residência pós doutoral no Centro de Processamento Avançado de Materiais, nos Estados Unidos.  Atualmente professor aposentado da UFMG, atua junto ao CTNANO. Com mais de 60 pedidos de patente depositados e mais de 125 artigos científicos publicados, é referência na área de nanomateriais

Por Antônio Pereira Ribeiro Arantes¹, Christopher Santos Silva¹, Ericke Cardoso Oliveira¹, Fernanda Maria Policarpo Tonelli², Gabriel Rodrigues Caldas Souza Aguiar¹, João Paulo Ribeiro Delfino¹, Julia Lopes Granato¹, Maria Eduarda Souza¹, Vinicius Marx Silva Delgado¹

¹Graduandos do curso de Bioquímica (UFSJ-CCO)

²Editora chefe do "À Luz da Ciência" e orientadora da LAstro (UFSJ)

v.1, n.4, 2023
Dezembro de 2023

Nascido em Belo Horizonte – Minas Gerais, Luiz Orlando Ladeira é graduado em Física pela UFMG, com mestrado/doutorado na UFMG e Pós Doutorado nos EUA, todos voltados para ciências de materiais. No Brasil, Ladeira desenvolveu e desenvolve pesquisas na área de nanotecnologia a partir de compostos de carbono, como nanotubos de carbonos. Ele encontrou, através de parcerias, aplicações para estas estruturas em várias áreas além da Física, como na medicina, química e biologia.  


Ladeira nunca teve dúvidas quanto à sua graduação e nem quanto ao valor de suas ideias. Uma de suas pesquisas envolveu adição dos nanotubos mencionados ao cimento: ideia inicialmente não valorizada por seus colegas da área da Física, mas que tornou-se tendência da Engenharia Civil para aumentar a resistência do material e reduzir o consumo de aço pelo setor. O Professor também participou de pesquisas de utilização de nanorods de ouro para a entrega de genes a células para as quais esta entrega é desafiadora. Foi ainda pioneiro no uso de nanotecnologia para engenharia de tecidos com colágeno. 


Seu ingresso na atuação científica se deve ao seu avô, um dos primeiros farmacêuticos da UFMG e um dos responsáveis pela federalização da instituição. Apesar de nunca tê-lo conhecido, Luiz Orlando relata que recebeu dele uma importante herança: seu laboratório que ficava em sua casa. 


Desde criança, o Professor gostava de fazer experimentos no laboratório, especialmente os considerados perigosos. Quando perguntado sobre o porquê de escolhido a Física e não áreas afins como a Químicas e a Farmácia, respondeu: “É uma coisa de garoto; na época estavam acontecendo os testes da bomba atômica e a explosão dela era maior! Fiquei instigado em saber qual era a origem de uma explosão tão grande. Outra coisa é que quando jovem eu era fascinado pelo Einstein!”.  


Como motivo para continuar pesquisando e se dedicando à ciência no Brasil é ser brasileiro; o fato de se sentir muito bem acolhido no país é fator motivador para Ladeira. O maior desafio, no entanto, de atuar nesta área no país é que não há planejamento prioritário por parte do governo para a pesquisa brasileira, oscilando-se entre épocas com muito recurso disponível e épocas com poucos recursos para manutenção dos trabalhos. Este cenário, na visão de Ladeira, é ainda pior do que uma limitação constante de recursos, pois picos esporádicos e imprevisíveis de investimento trazem além de limitações, grande instabilidade. Porém, ressalta que os brasileiros apresentam, comparado a estrangeiros, uma maior capacidade de alcançar grandes resultados com poucos investimentos, graças a improvisos e parcerias. Ele mesmo desenvolveu e desenvolve pesquisas de qualidade com recursos escassos.


Muitos conselhos são apresentados pelo Professor a quem deseja seguir carreira científica. O primeiro conselho é saber aliar conhecimentos de diferentes áreas, que pode trazer mais vantagens do que ser um especialista em apenas um campo do saber. Isto porque a interdisciplinaridade é crucial para o surgimento de inovações. “É necessário entender que se juntar o A de um pesquisador com o B de outro pesquisador, algo original surge.  Se você andar em uma floresta e olhar apenas em linha reta, você irá perder toda a beleza. A beleza está em olhar para os lados!”.  


Ladeira também considera essencial o uso da internet para o aprendizado, mas é crucial que se aprenda a filtrar as informações encontradas. Saber identificar em meio à  imensidão disponível, as fontes confiáveis. 


Outro conselho é que se siga o caminho da ciência caso se tenha vocação, visto que a vida de um cientista é muito desafiadora. “Você precisará ter vocação, abnegação, e muita curiosidade. Vai passar noites lendo e estudando; vai passar por muitas etapas, sofrer pressão para publicar uma grande quantidade de artigos; ganhar pouco e sobreviver com bolsa por grande parte da trajetória; muitas vezes terá que abrir mão do convívio com pessoas que ama por limitações financeiras e/ou necessidade de ampla dedicação para finalizar uma tese de doutorado, por exemplo. Vai ter que fazer muitas escolhas abrindo mão de muitas coisas durante esta trajetória de vida. A estabilidade só vai vir com o passar do tempo. Mas fazer uma descoberta nova é muito gratificante, não tem dinheiro que pague!” O professor termina seu conselho lembrando das pensamento de Albert Einstein que refletiu que ciência é 99% suor e apenas 1% de insights.  


Dr. Ladeira já conseguiu, durante sua carreira, antecipar tendências na nanotecnologia, sendo o pioneiro em muitas delas. Ao ser perguntado sobre possíveis tendências na área nos próximos 10 anos, respondeu que tecnologias de reuso de plástico estarão com demanda elevada no futuro. Ressaltou, por exemplo, que é possível utilizar plástico para sintetizar nanoestruturas de grafeno. Para o Professor, questões ambientais como pureza e potabilidade de água, e o combate à desertificação de regiões secas também se apresentarão como questões importantes para o desenvolvimento de nanosoluções.  


O Professor Luiz Orlando finaliza a entrevista com um alerta para a ameaça da poluição para a sobrevivência dos seres vivos, especialmente no que tange os micro e nanoplásticos. Tais estruturas podem causar inflamações sistêmicas e até o momento não há possibilidade de remover esse material do corpo. Impactos negativos sobre o cérebro (como aumento de casos de Alzheimer precoce aos 40 anos), sistema reprodutivo, sistema imune, e favorecimento de desenvolvimento de câncer estão dentre os malefícios possíveis. Caso atitudes não sejam adotadas em relação à temática, o Professor afirma, para espanto de muitos, que há grandes chances de a extinção da humanidade advir do plástico.

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