
Resistência bacteriana: a ameaça invisível causada pelo mau uso de antibióticos
Enzo Pace Raizaro¹, Gabrielle Guimarães Queiroz², Helloysa Gabrielly da Silva Batista Ribeiro², Laila De Vasconcelos², Maria Clara Pedrosa Ferreira³, Maria Luiza de Paula Corrêa², Thaynara Paula Silva³, Vaneza Gomes De Brito²
¹Graduandos do curso de Medicina (UFSJ-CCO)
² Graduandas do curso de Bioquímica (UFSJ-CCO)
³Graduandas do curso de Farmácia (UFSJ-CCO)
v.4, n.2, 2026
Fevereiro de 2026
A descoberta dos antibióticos é um divisor de águas na história da medicina. Com esses medicamentos, tornou-se possível tratar infecções causadas por bactérias e que antes causavam a morte de pacientes. Assim, foi possível a redução drástica da mortalidade, e consequentemente o aumento da expectativa de vida das pessoas. Desde a introdução da penicilina por Alexander Fleming em 1928, os antibióticos tornaram-se ferramentas indispensáveis no combate a doenças infecciosas como pneumonia, tuberculose e infecções urinárias [1]. Esses fármacos atuam eliminando ou inibindo o crescimento de bactérias, promovendo a recuperação do paciente e prevenindo complicações graves.
Entretanto, o uso excessivo e inadequado de antibióticos ao longo das décadas contribuiu para o surgimento da resistência bacteriana, que é um fenômeno natural, mas acelerado pelas ações humanas. Esse problema é crescente e compromete a eficácia dos tratamentos disponíveis, representando uma das maiores ameaças à saúde pública global, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) [2].

Figura 1: Representação ilustrativa de uma pessoa segurando comprimidos na palma da mão, simbolizando o uso de antibióticos.
Fonte: https://blog.sabin.com.br/saude/utilizacao-segura-de-antibioticos/
A resistência bacteriana após as bactérias desenvolverem métodos que as permite sobreviver à ação dos antibióticos. Dentre esses métodos, destacam-se a produção de moléculas (ditas enzimas) que degradam o medicamento, a modificação dos alvos moleculares dos antibióticos, alterações na permeabilidade da membrana celular (dificultando a entrada do medicamento na célula bacteriana) e a ativação de bombas de efluxo que expulsam o fármaco do interior da bactéria [3]. Como resultado, estes agentes causadores de doença não resistentes, mais “fracos”, são eliminadas pelo tratamento, enquanto os resistentes sobrevivem e se multiplicam, levando à seleção natural de organismos difíceis de se combater. Assim, o indivíduo infectado fica em risco, podendo morrer em decorrência da infecção bacteriana.
Esse fenômeno está diretamente relacionado ao uso inadequado dos antibióticos. Fatores como a automedicação, o uso desses fármacos para tratar infecções virais, a interrupção do tratamento antes da hora certa, e a prescrição excessiva por parte dos profissionais de saúde são práticas que favorecem a seleção de grupos bacterianos resistentes [4].
Para conter esse avanço, é essencial adotar medidas de uso racional dos antibióticos. Isso inclui utilizar esses medicamentos apenas com prescrição médica, seguir corretamente a dose e o tempo de tratamento indicados e não compartilhar antibióticos com outras pessoas. Em ambientes hospitalares, o controle da resistência requer vigilância ativa, programas de uso racional de antimicrobianos, e práticas de higiene adequadas para prevenir infecções cruzadas [5].
Além das medidas individuais, estratégias globais têm sido propostas para lidar com a crise. A OMS lançou, em 2015, um Plano de Ação Global para combater a resistência antimicrobiana, que visa melhorar a conscientização pública, fortalecer a vigilância e pesquisa, reduzir infecções, melhorar o uso de antimicrobianos e desenvolver novos medicamentos, vacinas e diagnósticos [6].
No Brasil, iniciativas como o Programa Nacional de Prevenção e Controle da Resistência aos Antimicrobianos (PNPC-RA), coordenado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), têm buscado integrar ações em diferentes setores, como a saúde humana, animal e meio ambiente, alinhadas ao conceito de Saúde Única, “One Health”. Tais ações partem do princípio de que a saúde humana está interligada à saúde dos animais e ao ambiente [7]. Esse tipo de abordagem é crucial para lidar com a complexidade e a abrangência da resistência bacteriana.
Diante do impacto crescente da resistência bacteriana, precisamos reconhecer que essa ameaça não é um problema distante ou exclusivo de hospitais. Ela já afeta a população de forma direta, comprometendo a eficácia de tratamentos simples e cotidianos, como o de uma infecção urinária comum ou de uma ferida infectada [2]. Por isso, é importante que a sociedade como um todo se una para enfrentar esse problema. Informar-se sobre o uso correto de antibióticos, não se automedicar, questionar prescrições de medicações desnecessárias e apoiar políticas públicas de vigilância e pesquisa são atitudes que fazem diferença. O uso responsável de antibióticos é uma responsabilidade coletiva, que envolve profissionais de saúde, governos, indústria farmacêutica e cada cidadão.
A resistência bacteriana é um problema complexo, mas pode ser evitado. Ao adotar práticas responsáveis no uso de antibióticos e investir em educação e prevenção, é possível preservar a eficácia desses medicamentos e garantir que continuem sendo aliados da medicina no combate às infecções. A ciência já fez sua parte ao descobrir os antibióticos. Agora, cabe a todos nós garantir que eles continuem salvando vidas nas próximas gerações.
Referências Bibliográficas
[1] Brasil - Ministério da Saúde. Uso de antibióticos – orientações. 2016. Disponível através do link: https://bvsms.saude.gov.br/?p=2128. Acesso em: 05 fev. 2026.
[2] Organização Mundial da Saúde (OMS). Resistência antimicrobiana. 2023. Disponível através do link: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/antimicrobial-resistance. Acesso em: 05 fev. 2026.
[3] Ventola CL. The antibiotic resistance crisis: part 1: causes and threats. 2015. Disponível através do link: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4378521/. Acesso em: 05 fev. 2026.
[4] Tua Saúde. Resistência bacteriana: o que é, porque acontece e como evitar. 2025. Disponível através do link: https://www.tuasaude.com/resistencia-bacteriana/. Acesso em: 05 fev. 2026.
[5] E-Cycle. Resistência bacteriana: o que é e como evitar? 2025. Disponível através do link: https://www.ecycle.com.br/resistencia-bacteriana/. Acesso em: 05 fev. 2026.
[6] World Health Organization (WHO). Global action plan on antimicrobial resistance. 2015. Disponível através do link: https://www.who.int/publications/i/item/9789241509763. Acesso em: 05 fev. 2026.
[7] Brasil - Ministério da Saúde. Uma só saúde. 2025. Disponível através do link: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/u/uma-so-saude. Acesso em: 05 fev. 2026.