
Novos medicamentos emagrecedores: uma revolução no combate à obesidade
Anne Caroliny Teles dos Santos¹, Daniela Cristina Alves Barbosa¹, Jéssica Lara Vargas Oliveira¹, João Victor Andrade², Isabelly Rossi Ferreira², João Pedro Pires de Castro³, Karine da Silva Souza³, Antonio Lucas Oscar da Penha de Mattos³
¹ Graduandas do curso de Farmácia(UFSJ-CCO)
² Graduandos do curso de Bioquímica (UFSJ-CCO)
³ Graduandos do curso de Enfermagem (UFSJ-CCO)
v.4, n.2, 2026
Fevereiro de 2026
A obesidade é uma condição médica crônica, de longa duração, inflamatória e com causas diversas, caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) tal condição tem crescido de forma alarmante, atingindo mais de 1 bilhão de pessoas globalmente. De acordo com dados do Vigitel (2023), no Brasil, mais da metade da população adulta apresenta excesso de peso, e aproximadamente 20% são considerados obesos. A obesidade está diretamente associada ao aumento do risco de diversas doenças como cardiovasculares (como a popularmente conhecida "pressão alta"), diabetes tipo 2, dislipidemias (como colesterol alto, por exemplo), apneia do sono, osteoartrite e alguns tipos de câncer [1].
Diante da problemática do tratamento da obesidade, que envolve fatores genéticos (herdados de uma geração para a seguinte), comportamentais, metabólicos (envolvendo as reações químicas que acontecem no organismo) e ambientais, as novidades em medicamentos têm se mostrado aliadas importantes quando as mudanças no estilo de vida (alimentação e atividade física) não são suficientes. Neste quadro, novos medicamentos vêm sendo desenvolvidos com mecanismos inovadores e mais eficazes, oferecendo novas perspectivas no tratamento dos pacientes.
Entre os tratamentos mais promissores estão os agonistas dos receptores de uma substância chamada peptídeo semelhante ao glucagon-1 (GLP-1). Estes são medicamentos inicialmente indicados para o controle do diabetes tipo 2, mas que demonstraram eficácia no auxílio à perda de peso. Imitam a ação do GLP-1 produzido pelo organismo, promovendo saciedade (sensação de não precisar mais ingerir alimento) precoce, retardo do esvaziamento gástrico (demora no esvaziar do estômago pós refeição) e redução da ingestão calórica. A semaglutida é um exemplo deste tipo de medicamento, comercializado com nomes diversos como o Ozempic (Figura 1). Ela ofereceu uma redução média de 14,9% do peso corporal de pacientes em 68 semanas [2]. Já a tirzepatida, outro exemplo, combina a ação sobre os receptores de GLP-1 com a ação também em outro receptor: o do polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP); tal medicamento apresentou reduções de até 22,5% do peso corporal, mostrando-se mais eficiente que outras terapias anteriormente desenvolvidas [3].

Figura 1: Semaglutida - Ozempic, Wegovy e Ryselsus: novos medicamentos para emagrecer.
Além da perda de peso, esses medicamentos têm exibido benefícios adicionais, como melhora da sensibilidade à insulina, controle da concentração da glicose no sangue, redução da inflamação no organismo e até mesmo melhora em marcadores cardiovasculares (relativos a coração e vasos sanguíneos).
No entanto, o uso desses medicamentos deve ser criterioso e acompanhado por um profissional de saúde, pois efeitos indesejados como náuseas, vômitos, diarreia, constipação e dor abdominal, principalmente nas primeiras semanas, podem surgir [4]. Por serem medicamentos considerados novos, ainda não existem estudos sobre estes efeitos colaterais a longo prazo. Entretanto o uso desses medicamentos deve ser evitado em pacientes com histórico de pancreatite (inflamação do pâncreas), doenças graves do sistema digestivo e de alguns tipos de câncer.
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já aprovou o uso de algumas destas substâncias, como a da semaglutida, para tratamento da obesidade (em 2023); porém, outros ainda estão em fase de avaliação. A prescrição é restrita e requer diagnóstico clínico da obesidade, com índice de massa corporal (IMC - índice obtido dividindo-se a massa do paciente em kg pelo resultado de sua altura multiplicada por ela mesma) ≥30 kg/m², ou IMC ≥27 kg/m² com outras doenças associadas.
É importante destacar que o uso de medicamentos para emagrecimento levanta questões éticas e sociais principalmente por causa da chamada medicalização estética: muitas pessoas usam esses remédios por pressão dos padrões de beleza, mesmo sem necessidade clínica. Tal medida pode causar riscos à saúde e esgotar os estoques das farmácias, deixando aqueles pacientes com real necessidade de uso da medicação sem o remédio. Não trata-se de medicamentos baratos, o que também motiva a preocupação com o acesso desigual a eles, muitas vezes impedindo o tratamento por parte das pessoas de baixa renda [5].
Referências Bibliográficas
[1] Organização Mundial da Saúde. Obesidade e sobrepeso. 2024. Disponível através do link: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/obesity-and-overweight. Acesso em: 05 fev. 2026.
[2] Wilding JPH et al. Once-weekly semaglutide in adults with overweight or obesity. The New England Journal of Medicine, v. 384, n. 11, p. 989–1002, 2021.
[3] Jastreboff AM et al. Tirzepatide once weekly for the treatment of obesity. The New England Journal of Medicine, v. 387, p. 205–216, 2022.
[4] Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Obesidade: causas, diagnóstico e tratamentos. 2024. Disponível através do link: https://www.endocrino.org.br/obesidade. Acesso em: 05 fev. 2026.
[5] Oliveira CM, Ferreira RS. Medicalização da estética e os riscos do uso indiscriminado de fármacos para emagrecimento. Revista Saúde & Sociedade, v. 30, n. 2, p. 487–495, 2021.