
Design Racional de Fármacos e os Desafios no Combate ao Câncer
Sabrina Sayra Reis Duarte¹, Erika Bennaia Ribeiro dos Reis¹, Bruna Santinelli¹, Larissa Cristiane Souza Prote¹, Maria Eduarda de Sousa Silva¹, Melissa Gomes Santana²
¹Graduandas do curso de Bioquímica (UFSJ-CCO)
² Graduanda do curso de Farmácia (UFSJ-CCO)
v.4, n.1, 2026
Janeiro de 2026
A descoberta de novos medicamentos é um pilar fundamental da medicina moderna, que continuamente busca soluções para tratar doenças que afetam a humanidade. Neste contexto, seu desenvolvimento ocorre através de processos complexos e de vital importância para a saúde humana [1]. Historicamente, a identificação de novos fármacos dependia de um processo popularmente conhecido como: "tentativa e erro". Pesquisadores testavam inúmeras substâncias em busca de alguma que apresentasse um efeito terapêutico desejado [2]. Esse método, embora tenha ajudado muito a sociedade, era um processo caro, demorado e muitas vezes, ineficiente. Entretanto, avanços significativos na biologia molecular, bioinformática, entre outras áreas, permitiram a criação de uma estratégia mais precisa e eficiente: o Design Racional de Fármacos [3]. Este utiliza conhecimentos detalhados sobre o funcionamento do organismo e sobre os processos associados à doença para criar compostos que atuem diretamente no alvo desejado, oferecendo melhora e/ou curo ao paciente.
O processo de criação de um medicamento tem início com estudos feitos por cientistas (Figura 1). Primeiro, eles pesquisam a doença e a entendem de forma aprofundada, investigando qual(is) estrutura(a) está(ão) envolvida(s) em seu desenvolvimento e como ela(s) se comporta(m). Após, um alvo molecular é então escolhido, geralmente uma proteína essencial para a sobrevivência de um vírus, bactéria, ou para o funcionamento de uma enzima (molécula biológica que acelera reações) envolvida em uma doença [4]. Os pesquisadores analisam a estrutura deste alvo selecionado utilizando a bioinformática e métodos de análise avançados como cristalografia de raios-X ou ressonância magnética nuclear (técnicas usadas para determinar a estrutura tridimensional de moléculas) [5].

Figura 1: Novos medicamentos precisam de pesquisa para serem desenvolvidos.
Com esse conhecimento, torna-se possível projetar ou identificar compostos químicos capazes de neutralizarem o alvo, por exemplo, associando-se a ele e impedindo sua ação. Essa associação específica, ao interferir na atividade da molécula-alvo, inibindo sua função, contribui para o combate à doença [6]. Por exemplo, se uma proteína específica está causando inflamação, o fármaco será projetado para "desligar" ou "bloquear" a ação dessa proteína.
Atualmente, um desafio a ciência busca resolver é como lidar com alvos undruggable, termo que refere-se a proteínas ou outras moléculas que são difíceis ou impossíveis de serem afetadas por medicamentos convencionais devido à sua estrutura, função ou propriedades dinâmicas (movimento e mudanças de forma da molécula) [7]. Estes alvos, por vezes, não possuem regiões de ligação bem definidas ou são muito complexos, tornando a criação do medicamento um desafio.
No tratamento do câncer, por exemplo, o design racional de fármacos tem um papel fundamental, especialmente no surgimento das terapias-alvo [8], que mudaram a forma como muitos tipos de câncer são tratados. A quimioterapia tradicional, atinge todas as células que se dividem rapidamente [9], enquanto os medicamentos desenvolvidos por meio do design racional são criados para agir em pontos muito específicos: evitando efeitos colaterais [3]. Com isso, conseguem combater as células doentes de forma mais precisa, resguardando os tecidos saudáveis. Um exemplo é o fármaco Imatinibe, usado para tratar leucemia mieloide crônica (LMC) (um câncer das células formadoras de sangue da medula óssea) [10]. Ele foi desenvolvido especificamente para bloquear a ação da proteína Bcr-Abl, presente nas células cancerígenas, mas ausente nas células normais [11]. Este medicamento melhorou a qualidade de vida dos pacientes oncológicos e permitiu um controle mais eficaz desse tipo câncer.
Ainda assim, por mais promissor que seja o desenvolvimento por design racional de novos medicamentos, o tratamento do câncer continua enfrentando grandes desafios. O desafio mais significativo está na natureza complexa da doença, já que existem mais de 200 tipos de câncer diferentes [12], que são classificados de acordo com o tipo de célula e o local onde o tumor se desenvolveu. E mesmo dentro de um mesmo tipo de tumor, pacientes podem ter respostas muito distintas ao mesmo tratamento. Isso torna muito difícil criar uma solução única.
Outro problema é que as células cancerígenas são muito adaptáveis. Muitas vezes, mesmo quando um fármaco apresenta bons resultados no início, com o tempo o tumor encontra maneiras de "escapar" do tratamento, tornando-se resistente [13]. Isso exige que a ciência esteja em constante movimento, buscando novas moléculas e estratégias para superar essa resistência.
Por estas razões o processo de desenvolvimento de fármacos oncológicos é longo, complexo e caro. Antes que chegue ao paciente, o medicamento precisa passar por etapas rigorosas: desde a escolha do alvo molecular, o desenho da molécula, testes em laboratório e em modelos animais, até os ensaios clínicos em humanos, que podem durar anos [14]. Mesmo com alto investimento na seleção, muitos candidatos acabam sendo descartados nas últimas fases por não atingirem os resultados esperados ou por apresentarem efeitos colaterais sérios.
Entretanto, com o avanço de tecnologias como inteligência artificial, análise genética de precisão e bioinformática, o design racional está se tornando cada vez mais sofisticado. A medicina personalizada, que leva em conta o perfil genético do paciente e do tumor, está cada vez mais integrada a essa lógica, permitindo tratamentos mais específicos e eficazes [15].
Em resumo, o design racional de fármacos é uma ferramenta poderosa no enfrentamento do câncer. Ele já trouxe avanços concretos e tem o potencial de transformar ainda mais a oncologia. No entanto, os desafios continuam sendo grandes, tanto do ponto de vista científico quanto econômico. A esperança é que, com o tempo, o acesso a esses tratamentos se torne mais amplo e que a tão esperada cura do câncer deixe de ser exceção e se torne uma realidade para um número cada vez maior de pessoas.
Referências Bibliográficas
[1] Nasciutti P. Desenvolvimento de novos fármacos. UFG, Goiânia, 2012. Disponível através do link: https://files.cercomp.ufg.br. Acesso em: 11 jan. 2026.
[2] Canal Saúde. Como se desenvolvem os remédios. Brasil. 2020. Disponível através do link: https://www.canalsaude.fiocruz.br/canal/videoAberto/como-se-desenvolvem-os-remedios-tcrl-0019. Acesso em: 11 jan. 2026.
[3] TEIXEIRA, Iris S.; MILAGRE, Cíntia D. F. Evolução dirigida de enzimas: pequenas modificações, melhores biocatalisadores. Disponível através do link: http://dx.doi.org/10.21577/0100-4042.20170538. Acesso em: 11 jan. 2026.
[4] BNDS. Como surge um novo medicamento. 2018. Disponível através do link: https://www.bndes.gov.br/wps/portal/site/home/conhecimento/noticias/noticia/novos-medicamentos-cgee. Acesso em: 11 jan. 2026.
[5] Guido R et al. Planejamento de fármacos, biotecnologia e química medicinal: aplicações em doenças infecciosas. 2010. Disponível através do link: https://doi.org/10.1590/S0103-40142010000300006 . Acesso em: 11 jan. 2026.
[6] PPGQuímica UFABC. A Química dos medicamentos. 2025. Disponível através do link: https://ppgquimica.propg.ufabc.edu.br/pt/a-quimica-dos-medicamentos. Acesso em: 11 jan. 2026.
[7] Xie X et al. Recent advances in targeting the “undruggable” proteins: from drug discovery to clinical trials. Disponível através do link: https://doi.org/10.1038/s41392-023-01589-z. Acesso em: 11 jan. 2026.
[8] Oncoclínicas&Co. O que é terapia-alvo. Disponível através do link: https://grupooncoclinicas.com/tudo-sobre-o-cancer/tratamentos-para-o-cancer/terapia-alvo. Acesso em: 11 jan. 2026.
[9] Centro de oncologia Monte Sinai. A quimioterapia. Disponível através do link: https://www.oncologiamontesinai.com.br/a-quimioterapia. Acesso em: 11 jan. 2026.
[10] Eurofarma. Imatinibe. 2016. Disponível através do link: https://eurofarma.com.br/produtos/mesilato-de-imatinibe. Acesso em: 11 jan. 2026.
[11] El-Tanani et al. O impacto do oncogene BCR-ABL na patologia e tratamento da leucemia mieloide crônica. 2024. Disponível através do link: https://doi.org/10.1016/j.prp.2024.155161. Acesso em: 11 jan. 2026.
[12] Cancer Research Institute (CRI). Exploring the different types of cancer and treatment options. Disponível através do link: https://www.cancerresearch.org/blog/exploring-the-different-types-of-cancer-and-treatment-options. Acesso em: 11 jan. 2026.
[13] Freitas S. Pesquisa revela capacidade de células cancerígenas se adaptarem a condições adversas para sobreviver em ambientes hostis. 2025. Disponível através do link: https://ufes.br/conteudo/pesquisa-revela-capacidade-de-celulas-cancerigenas-se-adaptarem-condicoes-adversas-para. Acesso em: 11 jan. 2026.
[14] Centro de Pesquisa Clínica da Universidade de São Caetano do Sul (CPC USCS). O processo de desenvolvimento de novos medicamentos: Da pesquisa a comercialização. Disponível através do link: https://uscspesquisaclinica.com.br/o-processo-de-desenvolvimento-de-novos-medicamentos-da-pesquisa-a-comercializacao. Acesso em: 11 jan. 2026.
[15] Dimasi JA et al. Innovation in the Pharmaceutical industry: New Estimates of R&D Costs. 2016. Disponível através do link: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26928437/. Acesso em: 11 jan. 2026.