
Apostas online e o cérebro humano
Mateus Henrique Martins Gomes¹, André Lima Mamud¹, Beatriz Monteiro Ribeiro², Eduardo Bergamasco Thomé¹, Kevelyn Moreira Libório¹, Natália Pereira Junqueira¹, Pedro Cazarin Cruz¹, Regis Honorio Prado¹
¹Graduandos do curso de Medicina (UFSJ CCO)
²Graduando do curso de Bioquímica (UFSJ/CCO)
v.4, n.1, 2026
Janeiro de 2026
Recentemente, os termos “tigrinho” e “bet”, tornaram-se tópicos frequentes do debate público, de modo que, segundo a ferramenta Google Trends, o número de pesquisas no buscador Google sobre esses termos aumentou desde meados de 2022 [1]. Esses termos são usados para referir ao jogo de apostas “Fortune Tiger” e aos cassinos, não mais físicos (Figura 1) e sim online, que se tornaram populares nos últimos anos. Tal cenário trouxe uma série de desafios para a sociedade, estabelecendo-se como um meio de expansão da ludopatia, definida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como uma doença mental caracterizada pelo vício em jogos de azar [2]. Dados recentes apontam que entre 1,96% e 3,05% da população mundial é afetada pelo transtorno associado aos jogos [3]. Além disso, projeções indicam que essa segmento das apostas está em plena expansão, podendo causar cerca de U$700 bilhões de prejuízos aos consumidores até 2028 [4]. No entanto, a popularização de apostas online se projeta além dos impactos econômicos, estabelecendo-se como uma crise de saúde pública. Tanto pela dependência causada quanto pela alta mortalidade associada, com dados indicando que, em pessoas com ludopatia, cerca de um em cada três, em algum momento, possuíram pensamentos recorrentes sobre suicídio e 10% chegam a tentar [5].

Figura 1: Roleta de Cassino.
Fonte: Wikimedia Commons
A popularização desses meios de aposta se dá por uma série de fatores que os tornam mais acessíveis e viciantes. Primeiramente, o anúncio desenfreado de jogos e casas de apostas nas redes sociais auxilia no maior contato dos usuários da internet com os mesmos, não sendo necessária a visita física a um cassino para se ter acesso a apostas e jogos de azar [4]. Além disso, muitos jogos online utilizam o design de “slot machine”, uma espécie de caça-níquel. Esse modelo de jogatina gera uma resposta rápida e intensiva [4]. A geração de dependência pode ser explicada também por três atributos comportamentais, que, resumidamente, tornam confusa a realidade e a capacidade de crítica, diminuem a autocrítica e geram fantasias e ilusões nos indivíduos [6]. A soma desses fatores comportamentais diminui a auto crítica e a percepção acerca da seriedade e do perigo da dependência em jogos de azar e sites de apostas, além de gerar uma ilusão de que esse comportamento pode mudar a realidade na qual a pessoa se encontra. No Brasil, as pessoas de baixa renda parecem estar mais propensas à dependência com relação a apostas online, visto que beneficiários de programas assistenciais, em 2024, enviaram cerca de R$3 bilhões de seus benefícios às empresas de apostas online, dos quais cerca de 67% desse valor foi enviado por chefes de família [7].
É interessante destacar que quando se menciona a dependência por parte de um indivíduo, normalmente associa-se a drogas como sendo as responsáveis por causar o estímulo viciante. Entretanto, a compulsão gerada por apostas e jogos ativa as mesmas estruturas encarregadas de enviar mensagens associadas ao vício em drogas, ou seja, o induz a liberação de dopamina (molécula sinalizadora dita neurotransmissor, popularmente conhecida como substância do prazer) estabelecendo e fortalecendo os sinais associados à ludopatia [8]. Dessa forma, como, no início, a sensação de vitória, associada à liberação de dopamina no sistema de recompensa (Figura 2) cerebral (associado a motivação e prazer), é recompensadora e prazerosa, o indivíduo tende a seguir buscando-a e realizando novas apostas.

Figura 2: Sistema de recompensa cerebral.
Fonte: https://www.ctsaofrancisco.com.br/noticia/145/sistema-de-recompensa-cerebral
Esse sistema é formado pela área tegmentar ventral (um importante centro de produção de dopamina), pelo núcleo accumbens (a estrutura principal envolvida em comportamentos viciantes) e o córtex pré-frontal (estrutura mais à frente do cérebro que é responsável pela motivação e tomada de decisões); estas regiões são ricas em células, os neurônios dopaminérgicos, que liberam o neurotransmissor do prazer para ativar áreas associadas a um dado estímulo prazeroso [8]. A semelhança fisiológica entre os jogos de azar e o vício em drogas pode ser evidenciada na quinta edição Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), que inclui a ludopatia ou transtorno do jogo de azar na categoria de “Transtornos Relacionados ao Uso de Substâncias e Aditivos” [9].
Além da recompensa em si, a expectativa também desempenha um papel importante no viciar em determinadas substâncias e comportamentos, como os jogos de azar [8]. Dessa maneira, estímulos associados à experiência -como imagens, sons e notificações- são capazes de causar uma liberação de dopamina antes mesmo de o ganho ocorrer, já que atuam como um indicador de que a recompensa está próxima. Assim, a liberação de dopamina é menor se a recompensa não ocorre ou se ela é menor que a esperada. Em oposição, há um aumento nos disparos dopaminérgicos se a recompensa é igual ou superior à esperada. Consequentemente, ocorre ativação do sistema de recompensa mesmo que não haja o prazer esperado, contribuindo para o surgimento de hábitos automatizados ou comportamentos compulsivos. Logo, os estímulos visuais e auditivos atuam como condicionadores (também conhecidos como gatilhos de um hábito ou vício) da aposta, aumentando a potencialidade de vício em jogos como “Fortune Tiger”, que possuem inúmeros estímulos visuais e sonoros. Outro fator que a neurociência aponta como fundamental e eficiente para a formação de dependência é a repetitividade, dada pela intermitência (ocorrência em intervalos) e incerteza, de um comportamento [8]. Em jogos online como o mencionado, os ciclos de aposta são praticamente instantâneos: há uma alta frequência de estímulos intermitentes e incertos, o que pode explicar a capacidade viciante que possuem. Tais ciclos são revolucionários em jogos de aposta quando comparados às loterias clássicas, que possuem intervalos de dias entre a aposta e o resultado [4].
Desse modo, com o potencial de dano que tais jogos e apostas podem causar, é urgente que medidas regulatórias sejam tomadas para auxiliar no manejo e tratamento dos indivíduos que desenvolvem a dependência associada a eles. Medidas como regulamentação e taxação das empresas são fundamentais para auxiliar na expansão dos serviços de apoio à saúde mental [4]. Além disso, a oferta de entrevista motivacional e terapia cognitivo comportamental pode ter um papel importante para pessoas que convivem com a ludopatia [9]. Assim, no Brasil especificamente, ampliar o acesso aos CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) pode ser um importante passo para se lidar com essa nova crise de saúde pública.
Referências Bibliográficas
[1] Google. Trends: explore interesse por “bet” e “tigrinho” no Brasil (últimos 5 anos). Disponível através do link: https://trends.google.com.br/trends/explore?date=today%205-y&geo=BR&q=bet. Acesso em: 11 jan. 2026.
[2]Organização Mundial da Saúde. Gambling. Disponível através do link: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/gambling?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 11 jan. 2026
[3] Stevens MWR et al. Global prevalence of gaming disorder: a systematic review and meta‑analysis. Australian and New Zealand Journal of Psychiatry, v. 55, n. 6, p. 553–568, 2021.
[4] The Lancet Public Health. Global burden of disease attributable to unsafe sex in 204 countries and territories, 1990–2021: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2021. Disponível através do link: https://www.thelancet.com/journals/lanpub/article/PIIS2468-2667(24)00167-1/fulltext. Acesso em: 11 jan. 2026.
[5] Robinson G et al. Current approaches to the identification and management of gambling disorder: a narrative review. Disponível através do link: https://www.mja.com.au/journal/2024/221/9/current-approaches-identification-and-management-gambling-disorder-narrative. Acesso em: 11 jan. 2026.
[6] Koob GF et al. Substance use, abuse, and addiction. Disponível através do link: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK230627/. Acesso em: 11 jan. 2026.
[7] Banco Central do Brasil. Análise técnica sobre o mercado de apostas online no Brasil e o perfil dos apostadores. Disponível através do link: https://www.bcb.gov.br/conteudo/relatorioinflacao/EstudosEspeciais/EE119_Analise_tecnica_sobre_o_mercado_de_apostas_ online_no_Brasil_e_o_perfil_dos_apostadores.pdf. Acesso em: 11 jan. 2026.
[8] Kandel E et al. Princípios de neurociências. AMGH, 2023; 6 ed, p. 941-954.
[9] Menchon JM et al. An overview of gambling disorder: from treatment approaches to risk factors. Disponível através do link: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5893944/. Acesso em: 11 jan. 2026.