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A Origem da Vida

v.4, n.3, 2026
Março de 2026

Anna Luiza Ferreira Vieira¹,Celso Judson Tadeu Batista Ferreira¹, Vítor de Morais Santos¹, Antônio Pereira Ribeiro Arantes¹, Jakson Junio dos Santos¹, João Vitor Expedito Nunes², Larissa Cristiane Souza Prote², Leonardo Maciel Santos Silva¹, Luana de Sousa Vicente¹, Vinicius Marx S. Delgado², Luiz Guilherme Machado de Macedo³

¹ Estudantes da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ-CCO)

² Egressos da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ-CCO)

³ Professor da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ-CCO)

A origem da vida é uma das questões mais fascinantes da ciência e desperta interesse tanto de pesquisadores quanto do público em geral. Compreender como a vida surgiu e evoluiu envolve investigar não apenas os organismos vivos, mas também os processos naturais que tornaram esse surgimento possível. Nesse contexto, a ciência busca explicar como sistemas simples deram origem a estruturas cada vez mais complexas, culminando na diversidade biológica observada atualmente [1, 2].

A vida, como a conhecemos, não surgiu de forma isolada, mas a partir de interações químicas que ocorreram ao longo de milhões de anos. Elementos e moléculas presentes no ambiente primitivo da Terra passaram a se organizar de maneira progressiva, formando compostos orgânicos fundamentais. O experimento clássico de Miller-Urey, por exemplo, demonstrou que era possível formar aminoácidos (os constituintes de proteínas) a partir de condições simuladas da Terra primitiva, fornecendo as primeiras evidências experimentais para essa hipótese [3]. Com o avançar do tempo, esses compostos deram origem a sistemas capazes de realizar reações químicas essenciais, armazenar energia e se reproduzir, estabelecendo as bases da vida [4].

A Terra apresentou condições particularmente favoráveis para que esses processos ocorressem. A presença de água em estado líquido permitiu que reações químicas fundamentais acontecessem de forma estável. Além disso, fatores como a atividade tectônica, o campo geomagnético e a relativa estabilidade do Sol contribuíram para a manutenção de um ambiente protegido e energeticamente equilibrado. A ausência de eventos cósmicos extremos nas proximidades do planeta também foi decisiva para a continuidade desses processos ao longo do tempo [5-7].

Embora essas condições expliquem o sucesso da vida na Terra, elas não excluem a possibilidade de que processos semelhantes possam ocorrer em outros locais do universo. A astrobiologia investiga justamente essa hipótese, considerando que os princípios químicos envolvidos na origem da vida são universais [2, 8]. Evidências recentes, como a identificação de aminoácidos, bases nitrogenadas e vitaminas em amostras do asteroide Ryugu, reforçam a ideia de que moléculas essenciais à vida podem se formar fora do planeta Terra [9, 10].

Dessa forma, estudar a origem da vida envolve não apenas compreender o passado do nosso planeta, mas também ampliar a visão sobre os mecanismos químicos e físicos que podem sustentar a vida em diferentes ambientes. A ciência, nesse sentido, avança a partir da análise cuidadosa das evidências disponíveis, mantendo em aberto a investigação sobre como e onde a vida pode surgir no universo [2, 8].

Proteínas autorreplicantes primitivas, ou sistemas semelhantes a príons, vêm ganhando destaque na pesquisa sobre a origem da vida. Príons são proteínas que podem mudar de forma estrutural e induzir outras moléculas idênticas a adotarem a mesma configuração. Logo, podem transmitir informação sem depender de ácidos nucleicos (DNA e RNA), um conceito revolucionário desde a sua descoberta [11, 12]. Teorias atuais sugerem que, antes do surgimento do RNA, conjuntos de peptídeos com capacidade autocatalítica poderiam ter atuado como formas iniciais de herança molecular, guardando e passando adiante dados: por meio de conformações estáveis [13-15].

A hipótese do mundo de RNA propõe que o RNA precedeu o DNA e as proteínas, acumulando funções de armazenamento de informação e catálise [16]. A descoberta das ribozimas demonstrou que o RNA pode catalisar reações químicas, tornando plausível um sistema autocatalítico primitivo baseado em replicação de sequências. Evidências adicionais incluem o caráter ribozímico do centro catalítico do ribossomo e a ubiquidade de cofatores nucleotídicos (ATP, NAD⁺, FAD): sugerindo herança evolutiva de um estágio pré-proteico [17].

Entretanto, dificuldades na síntese prebiótica de ribonucleotídeos e na estabilidade do RNA motivaram hipóteses complementares. Entre elas destacam-se modelos baseados em peptídeos autocatalíticos, e sistemas conformacionais semelhantes a príon. Nesses modelos, a informação não é transmitida por sequência nucleotídica, mas por estados estruturais estáveis capazes de induzir o mesmo dobramento em outras moléculas como um mecanismo de herança conformacional [14, 15, 18].

Essas hipóteses não são excludentes. Modelos integrados sugerem que redes peptídicas e ribozimas possam ter coexistido, aumentando estabilidade, eficiência catalítica e capacidade de seleção molecular. Esse cenário cooperativo teria precedido o surgimento do LUCA (Último Ancestral Comum Universal), que já possuía sistema genético baseado em RNA/DNA, ribossomos funcionais e metabolismo organizado [19, 20].

Assim, a transição para a vida celular pode ter resultado da convergência progressiva entre informação baseada em sequência (RNA) e informação baseada em conformação (peptídeos), sob princípios de auto-organização química [14-17, 21].

Esses conceitos não competem com a ideia do "mundo de RNA", mas expandem as opções ao propor que redes de peptídeos organizados tenham existido ao lado de ribozimas iniciais, ajudando na seleção de moléculas e na formação de protocélulas. Estudar sistemas como esses conecta a auto-organização química à herança biológica de forma intrigante [14, 15, 18].

Foi nesse ponto que a bioinformática se apresentou como ferramenta essencial. Ao combinar biologia e computação, essa área permite analisar grandes volumes de dados genéticos e moleculares, ajudando a reconstruir a história evolutiva da vida. Por meio da comparação de sequências de DNA e proteínas de diferentes espécies, cientistas conseguem construir "árvores da vida", identificando relações de parentesco e inferindo quais genes já estavam presentes no ancestral comum dos organismos atuais [22, 23].

Essas análises ajudam a identificar genes conservados universalmente, sugerindo que desempenham funções essenciais e muito antigas. Além disso, ferramentas computacionais permitem prever a estrutura tridimensional de proteínas (como exemplificado pelo avanço revolucionário do AlphaFold) e modelar como elas funcionam em diferentes condições ambientais: incluindo ambientes extremos semelhantes aos da Terra primitiva [22-24].

Embora ainda não saibamos exatamente como a vida surgiu, as evidências indicam que os ingredientes químicos estavam presentes na Terra primitiva e que processos naturais puderam organizá-los gradualmente em sistemas cada vez mais complexos. A integração entre experimentos laboratoriais, estudos geológicos, hipóteses moleculares e análises computacionais vem aproximando a ciência de respostas mais consistentes [22, 23].

Assim, investigar a origem da vida não é apenas reconstruir um evento do passado distante, mas compreender os princípios fundamentais que tornam possível a existência de sistemas vivos. Trata-se de uma questão que conecta química, biologia, física e tecnologia computacional, ampliando nossa percepção sobre o lugar da humanidade no universo [21, 23].

Referências Bibliográficas

[1] GALANTE, Douglas et al. Astrobiologia: uma ciência emergente. São Paulo: Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas, Universidade de São Paulo (USP), 2016.

[2] RUIZ-MIRAZO, Kepa; PERETÓ, Juli; MORENO, Alvaro. A Universal Definition of Life: Autonomy and Open-Ended Evolution. Origins of Life and Evolution of Biospheres, v. 34, n. 3, p. 323-346, 2004.

[3] MILLER, Stanley L. A Production of Amino Acids Under Possible Primitive Earth Conditions. Science, v. 117, n. 3046, p. 528-529, 1953.

[4] KITADAI, N.; MARUYAMA, S. Origins of building blocks of life: a review. Geoscience Frontiers, v. 9, n. 4, p. 1117–1153, 2018.

[5] WESTALL, Frances et al. A Hydrothermal-Sedimentary Context for the Origin of Life. Astrobiology, v. 18, n. 3, p. 259-293, 2018.

[6]. SLEEP, Norman H. et al. Hadean Earth and the Origins of Life. In: Earth's Oldest Rocks. 2. ed. Amsterdã: Elsevier, 2019. p. 923-946.

[7]. DES MARAIS, David J. et al. The NASA Astrobiology Roadmap. Astrobiology, v. 8, n. 4, p. 715-730, 2008.

[8]. DES MARAIS, David J. et al. The NASA Astrobiology Roadmap. Astrobiology, v. 8, n. 4, p. 715-730, 2008.

[9]. OBA, Yasuhiro et al. Uracil in the carbonaceous asteroid (162173) Ryugu. Nature Communications, v. 14, n. 1, p. 1292, 2023.

[10]. POTISZNY, Agata et al. Organic Matter in the Asteroid Ryugu: What We Know So Far. Life, v. 13, n. 7, p. 1448, 2023.

[11]. PRUSINER, Stanley B. Novel proteinaceous infectious particles cause scrapie. Science, v. 216, n. 4542, p. 136-144, 1982.

[12]. COLLINS, S. J.; LAWSON, V. A.; MASTERS, C. L. Transmissible spongiform encephalopathies. The Lancet, v. 363, n. 9402, p. 51–61, 2004.

[13]. GREENWALD, J.; RIEK, R. Biology of amyloid: structure, function, and regulation. Structure, v. 18, n. 10, p. 1244–1260, 2010.

[14]. JHEETA, Sohan et al. The Way forward for the Origin of Life: Prions and Prion-Like Molecules First Hypothesis. Life, v. 11, n. 9, p. 872, 2021.

[15]. LUPI, Omar et al. Are prions related to the emergence of early life? Medical Hypotheses, v. 67, n. 5, p. 1036-1040, 2006.

[16]. GILBERT, Walter. The RNA world. Nature, v. 319, p. 618, 1986.

[17]. ALBERTS, Bruce et al. Molecular Biology of the Cell. 4. ed. Nova York: Garland Science, 2002. Cap. 6: The RNA World and the Origins of Life.

[18]. MAURER-STROH, S. et al. Exploring the sequence determinants of amyloid structure using position-specific scoring matrices. Nature Methods, v. 7, p. 237–242, 2010.

[19]. WEISS, Madeline C. et al. The physiology and habitat of the last universal common ancestor. Nature Microbiology, v. 1, n. 9, p. 16116, 2016.

[20]. MOODY, Edmund R. R. et al. The nature of the last universal common ancestor and its impact on the early Earth system. Nature Ecology & Evolution, v. 8, p. 1654–1666, 2024.

[21]. RUIZ-MIRAZO, Kepa; PERETÓ, Juli; MORENO, Alvaro. A Universal Definition of Life: Autonomy and Open-Ended Evolution. Origins of Life and Evolution of Biospheres, v. 34, n. 3, p. 323-346, 2004.

[22]. SINGH, Sarvendra Vikram. Bioinformatics – Supporting modern life science research, applications, and challenges. Brazilian Journal of Development, v. 10, n. 2, p. e67060, 2024.

[23]. SZOSTAK, Natalia; WASIK, Szymon; BLAZEWICZ, Jacek. Understanding Life: A Bioinformatics Perspective. European Review, v. 25, n. 2, p. 231–245, 2017.

[24]. JUMPER, John et al. Highly accurate protein structure prediction with AlphaFold. Nature, v. 596, n. 7873, p. 583-589, 2021.

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