
Verde, Amarelo, Azul e Branco: Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF)
v.4, n.3, 2026
Março de 2026
João Vitor Expedito Nunes¹, Anna Luiza Ferreira Vieira², Antônio Pereira Ribeiro Arantes², Celso Judson Tadeu Batista Ferreira², Jakson Junio dos Santos², Larissa Cristiane Souza Prote¹, Leonardo Maciel Santos Silva², Luana de Sousa Vicente², Vinicius Marx S. Delgado¹, Vítor de Morais Santos², Luiz Guilherme Machado de Macedo³
¹ Egressos da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ-CCO)
² Estudantes da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ-CCO)
³ Professor da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ/CCO)
O Capitão de Fragata Luiz Antonio de Carvalho Ferraz era especializado em oceanografia e era oficial hidrógrafo da Marinha. Seu interesse científico pelas questões do mar o levou a ter um profundo interesse pelo avanço brasileiro na pesquisa no polo sul. Por esta razão dedicou boa parte de sua carreira a defender e ajudar a estabelecer a presença brasileira no continente gelado (Antártida). Fez parte da comissão técnica que escolheu o primeiro navio a realizar as operações brasileiras na região e sempre representou o Brasil internacionalmente em eventos de discussão sobre o continente e em viagens (acompanhando expedições de pesquisas de outros países). Essas qualidades e o espírito científico foram de grande valor para estabelecer o programa antártico brasileiro [1,2].
O Capítão faleceu em agosto de 1982, e infelizmente não viu a concretização de suas ações pela primeira Operação Antártica (OPERANTAR I), que ocorreu em dezembro do mesmo ano. A operação buscava entender e adquirir conhecimentos necessários sobre as condições locais para superar os desafios de estabelecer uma estação de pesquisa no local. A OPERANTAR I marcou o reconhecimento internacional da presença e capacidades brasileiras na Antártica (mas o Brasil já fazia parte do acordo da Antártica desde 1975). Em 1984, dando sequência ao sucesso da operação anterior, a OPERANTAR II foi a responsável por estabelecer a estação de pesquisa brasileira, com o nome de Estação Antártica Comandante Ferraz, composta por humildes oito contêineres. Na península de Keller, na ilha Rei George, um grupo-base de 12 homens ficaram ali por 32 dias de verão, colocando o Brasil na lista das 29 nações com programas científicos no continente mais ao sul do planeta [1-3].
As operações antárticas seguintes (que até 2025 somavam 43) foram responsáveis por expandir as habitações, diminuir os impactos ecológicos da ocupação, melhorar os sistemas de comunicações e o conforto da estação (garantindo que a ocupação pudesse ocorrer ao longo de todo ano, embora a maioria dos ocupantes permaneça apenas no verão antártico). Tais operações também visaram capacitar os locais para realizar pesquisas científicas e ecológicas sobre oceanografia, meteorologia, mudanças climáticas, ciências espaciais, biologia marinha, geologia e microbiologia. Cada vez maiores e mais ousadas, as operações não ficaram isentas de problemas; em 25 de fevereiro de 2012 um incêndio e uma explosão destruíram 70% da estação, vitimaram dois ocupantes e interromperam parte de suas atividades [2-4].
Laboratórios de meteorologia, química e de estudos de alta atmosfera, que não foram atingidos pelo acidente, continuaram trabalhando com os recursos disponíveis e com auxílio da comunidade científica de outros países (que se mostraram muito solidários com a equipe brasileira que esperava pela reconstrução de sua estação) [2].
Ainda em 2012 o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), a convite da Marinha, promoveu um concurso para definir os modelos para a reconstrução da Estação: que contou com um design belo, funcional, inovador e que ocupa mais de 4.000 m². A nova estação possui um sistema próprio de energia eólica, água, esgoto e telecomunicações. Conta com 17 laboratórios e um design que a permite suportar os ventos violentos de até 200 km/h, o acúmulo de neve e acomodar 65 ocupantes. Além disso, os projetistas buscaram causar o mínimo de impacto possível na área onde a estação seria reconstruída, respeitando tanto a topografia quanto às formas de vida nos arredores. O resultado foi uma arquitetura funcional e bela que voltou a abrigar pesquisadores brasileiros. A reinauguração foi programada para 2016, porém, ocorreu em 15 de janeiro de 2020 e deu continuidade à ocupação e às pesquisas brasileiras, que completaram 42 anos em seis de fevereiro de 2026 [3, 5].
Os anos de pesquisa da Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF) (Figura 1) foram marcados por coragem, cooperação e contribuição para a ciência, inovação e preservação ambiental não só para o Brasil, mas também para o planeta. Consistiu em soma de esforços para enfrentar-se os desafios da humanidade. Diversas instituições brasileiras fazem parte dessa história, como a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Universidade de São Paulo (USP) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) [3, 6, 7, 8,10].

Figura 1: EACF.
Fonte: Divulgação Marinha do Brasil.
Em 12 de abril de 2025, a OPERANTAR XLIII garantiu o apoio logístico à estação, realizando manutenções e reabastecimento de suprimentos. Desta forma assegurou-se que 24 projetos de pesquisa fossem realizados ao longo de seis meses, inclusive pesquisas de campo. Quatro acampamentos foram montados e desmontados durante a operação. Também foram feitas manutenções na estação, garantindo sua segurança e adequação ambiental. Além disso, esta operação fortaleceu a cooperação internacional da Estação Antártica Comandante Ferraz, já que houve uma interação com os programas antárticos de outros países como Argentina, Chile, Turquia, Rússia, Equador, Canadá, Polônia e Peru. Reafirmou o compromisso da ciência brasileira com os interesses de todos [9,10].
O interesse na Antártica vai além de fatores econômicos e geopolíticos. O estudo nessas condições ajudará que um melhor entendimento sobre as mudanças climáticas ocorra, e com isso poderemos acompanhar com mais precisão nossos avanços. Além disso oferece uma melhor capacidade para a meteorologia do Brasil, garantindo uma segurança contra desastres, previsão de frentes frias e uma melhor previsão para a agricultura. A estação está então alinhada com os próximos desafios e pronta para continuar a abrigar o ímpeto científico do Brasil.
Referências Bibliográficas
[1] Comandante Ferraz (in memorian). Disponível em: <https://www.marinha.mil.br/secirm/pt-br/proantar/in-memoriam>. Acesso em: 05 mar 2026.
[2] MARINHA DO BRASIL. Histórico da Estação Antártica Comandante Ferraz. Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (CIRM), s.d. Marinha do Brasil – SECIRM. Disponível em: https://www.marinha.mil.br/secirm/pt-br/ferraz-historico. Acesso em: 05 mar 2026.
[3] Estação Antártica Comandante Ferraz. Disponível em: <https://www.marinha.mil.br/secirm/pt-br/proantar/eacf>. Acesso em: 05 mar 2026.
[4] EXPLOSÃO NA ANTÁRTICA. Explosão na Antártica | Memoriaglobo. Disponível em:<https://memoriaglobo.globo.com/jornalismo/coberturas/explosao-na-antartica/noticia/explosao-na-antartica.ghtml>. Acesso em: 05 mar 2026.
[5] CONSELHO DE ARQUITETURA E URBANISMO DO BRASIL – CAU/BR. Nova Estação Antártica brasileira tem arquitetura inovadora. Brasília, 13 jan. 2020. Disponível em: https://caubr.gov.br/nova-estacao-antartica-brasileira-tem-arquitetura-inovadora/. Acesso em: 05 mar 2026.
[6] MINISTÉRIO REINAUGURA ESTAÇÃO ANTÁRTICA COMANDANTE FERRAZ. Disponível em: <https://www.gov.br/mcti/pt-br/acompanhe-o-mcti/entregas/2020/ministerio-reinaugura-estacao-antartica-comandante-ferraz>. Acesso em: 05 mar 2026.
[7] ANTÁRTICA, NA. O Brasil na Antártica: veja quais são as pesquisas desenvolvidas na Estação Comandante Ferraz | G1. Disponível em: <https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2020/01/17/o-brasil-na-antartica-veja-quais-sao-as-pesquisas-desenvolvidas-na-estacao-comandante-ferraz.ghtml>. Acesso em: 05 mar 2026.
[8] Pesquisadores brasileiros desenvolvem estudos na Antártica. Disponível em: <https://www.gov.br/pt-br/noticias/educacao-e-pesquisa/2020/01/pesquisadores-brasileiros-desenvolvem-pesquisas-na-antartida>. Acesso em: 05 mar 2026.
[9] Fase de verão da OPERANTAR XLIII é concluída após meio ano de atividades | Agência Marinha de Notícias. Disponível em: <https://www.agencia.marinha.mil.br/apoio-pesquisa/fase-de-verao-da-operantar-xliii-e-concluida-apos-meio-ano-de-atividades>. Acesso em: 05 mar 2026.
[10] SUPER. O que se faz na base brasileira da Antártica? Disponível em: <https://super.abril.com.br/ciencia/o-que-se-faz-na-base-brasileira-da-antartica/>. Acesso em: 05 mar 2026.