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A cristalografia e a Biologia Estrutural – Uma história contada por prêmios Nobel

v.4, n.3, 2026
Março de 2026

Vinicius Marx S. Delgado¹, Anna Luiza Ferreira Vieira², Antônio Pereira Ribeiro Arantes², Celso Judson Tadeu Batista Ferreira², Jakson Junio dos Santos², João Vitor Expedito Nunes¹, Larissa Cristiane Souza Prote¹, Leonardo Maciel Santos Silva², Luana de Sousa Vicente², Vítor de Morais Santos², Luiz Guilherme Machado de Macedo³

¹ Egressos da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ-CCO)

² Estudantes da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ-CCO)

³ Professor da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ-CCO)

As organelas, o núcleo e a célula no geral são constituídas de macromoléculas. Pense em pequenas construções de LEGO (organelas, núcleo e célula), composta por pecinhas de LEGO ainda menores (macromoléculas). Estas pequenas pecinhas são responsáveis por todo o funcionamento da célula. O que são, do que são feitas, com o que se parecem, e como funcionam são perguntas respondidas pela Biologia Estrutural: área da Biologia que estuda a estrutura e função das macromoléculas.

Não tem como falar dessa área sem falar da sua principal ferramenta: a cristalografia de raio X. Pense nela como uma foto de algo muito, muito pequeno. O mérito de realizar a primeira cristalografia da história é de Max von Laue, ganhador do Prêmio Nobel de Física em 1914. Ele comprovou que cristais são capazes de difratar raio X, indicando a natureza ondulatória da luz (na época, não se sabia muito sobre a natureza da luz nem sobre os raios-x; discutia-se se a luz era uma onda ou partícula) [1].

O resultado bruto de uma cristalografia é uma sequência de pontos ritmicamente separados, de muito difícil interpretação. Entretanto, William e Lawrence Bragg (pai e filho), ganhadores do Prêmio Nobel de física de 1915, desenvolveram a equação de Bragg, que relaciona a posição desses pontos com a estrutura real da molécula no cristal. Essencialmente, a equação consegue montar um modelo 3D em cima da distribuição dos pontos na fotografia 2D. Alguns anos depois, ambos foram responsáveis por determinar a estrutura do diamante [2].

Com relação à aplicação da cristalografia para modelos biológicos, esta começou a engatinhar com os trabalhos de James Summer e John Northrop: que provaram que as enzimas são proteínas (ao conseguirem transformar a enzima urease em um cristal que ainda retinha sua atividade catalítica). Até então não se tinha muita noção do que eram as enzimas, apesar de se saber já sobre suas atividades. Este trabalho com a urease foi premiado com o Nobel de Química de 1946 [3].

Max Perutz foi o primeiro a aplicar a cristalografia a uma proteína, e ganhou o Prêmio Nobel de Química de 1962. Ele resolveu a estrutura da proteína Hemoglobina. O padrão de pontos de uma proteína projetados no filme fotográfico é algo complicadíssimo, impossível de ser interpretado da maneira tradicional, com as técnicas que estavam disponíveis na época. Para contornar esse problema, Perutz adicionou íons de metais pesados ao redor da proteína, para conseguir diferenciar quais regiões da proteína estavam sendo projetadas no filme. Ainda assim, demoraram-se anos e foram necessárias centenas de fotografias para elucidar a estrutura da molécula. Um ato de muita perseverança [4]!

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Figura 1: Padrão cristalográfico de proteína.

Fonte:https://commons.wikimedia.org/wiki/File:X-ray_diffraction_pattern_3clpro.jpg

Na época, outra grande questão da Bioquímica girava em torno da estrutura do DNA e sobre como ele armazena informação (já que já se sabia que era essa molécula a responsável por transmitir informação genética entre descendentes). Nesse sentido James Watson, Francis Crick e Maurice Wilkins receberam o Nobel de Química em 1962, pela descoberta da Estrutura do DNA [6]. No entanto, o que foi descoberto muito mais tarde é que parte do trabalho foi roubado de uma pesquisadora que ficou à margem da história (sem premiação ou reconhecimento)! A famosa foto 51, que nitidamente mostra a projeção da dupla hélice da fita de DNA, é de autoria da Rosalind Franklin. A química era considerada uma das melhores cristalógrafas da Europa, e também estudava a estrutura dos ácidos nucleicos. Wilkins, seu colega de laboratório, mostrou sem sua permissão resultados do seu trabalho para Crick e Watson, que usaram a foto para concluir sobre a estrutura do DNA e publicar o artigo “Molecular Structure of Nucleic Acids: A Structure for Deoxyribose Nucleic Acid”, anunciando a recém-descoberta estrutura do DNA [7].

A contribuição de Rosalind só veio à tona com o livro Dupla Hélice, da autoria de Watson. O mais trágico dessa história veio anos mais tarde, com comentários muito polêmicos por parte de James. O menos problemático de todos foi o comentário na qual ele dizia que Rosalind não percebeu a estrutura do DNA por não se tratar de fato de uma química. Afirmação essa extremamente descabida e preconceituosa, já que ela era química renomada e suas anotações apontavam que ela já suspeitava da natureza do ácido nucleico. Não obstante, Watson também perdeu boa parte de suas regalias e premiações por comentários racistas ao alegar que a população negra tinha um QI médio menor que a branca, devido a diferenças genéticas [8].

A história da cristalografia e da biologia estrutural conta com vários outros prêmio importantes, cujo panorama se segue. Em 1997, John E Walker e Pauld D Boyer foram reconhecidos pela Academia por elucidarem a estrutura e funcionamento da ATP sintase. Pensem nessa proteína como a Itaipu (principal usina hidrelétrica do Brasil) da célula, a principal geradora de energia que sustenta toda a vida do ser humano [9].

Já nos anos seguintes, houve um avanço nas técnicas usadas para estudar a estrutura de proteínas. Em 2002 teve-se a invenção da espectrometria de massas e da ressonância magnética nuclear. Imagine a espectrometria como um raio laser que parte a proteína em pequenos pedaços de LEGO e então mede eles numa balança. Com a massa de cada pedaço é possível inferir como a proteína é feita! Já a ressonância magnética nuclear usa conceitos de química quântica para calcular a estrutura das macromoléculas. Mas de maneira simplificada, é como se medisse como cada átomo de hidrogênio reage à passagem de um ímã, e a partir disso é calculada sua posição [10].

Para finalizar, toda essa contribuição secular de bioquímicos, químicos e físicos culminou na criação de duas ferramentas que ganharam o prêmio Nobel de Química de 2024: o AlphaFold e o RFdiffusion. O primeiro é uma ferramenta de inteligência artificial que combina a estrutura de milhares de proteínas já fotografadas para predizer, com uma precisão espantosa, como é o desenho de moléculas que não tiveram ainda suas estruturas estudadas. Já o segundo, consegue ser ainda mais estarrecedor: através também de inteligência artificial, o cria proteínas funcionais totalmente do zero. Até então, o máximo que se conseguia era imitar-se padrões na natureza; porém esta ferramenta desenha moléculas nunca antes vistas e com atividades totalmente novas [11]!

Referências Bibliográficas

[1] Nobel Prize in Physics 1914. Disponível em: <https://www.nobelprize.org/prizes/physics/1914/summary/>. Acesso em: 26 fev. 2026.

[2] Nobel Prize in Physics 1915. Disponível em: <https://www.nobelprize.org/prizes/physics/1915/summary/>. Acesso em: 26 fev. 2026.

[3] Nobel Prize in Chemistry 1946. Disponível em: <https://www.nobelprize.org/prizes/chemistry/1946/summary/>. Acesso em: 26 fev. 2026.

[4] Nobel Prize in Chemistry 1962. Disponível em: <https://www.nobelprize.org/prizes/chemistry/1962/summary/>. Acesso em: 2 mar. 2026.

[5] DAHL, Jeff. X-ray diffraction pattern of crystallized 3Clpro, a SARS protease. (2.1 Angstrom resolution). , abr. 2006. Disponível em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:X-ray_diffraction_pattern_3clpro.jpg>. Acesso em: 2 mar. 2026

[6]  Nobel Prize in Physiology or Medicine 1962. Disponível em: <https://www.nobelprize.org/prizes/medicine/1962/summary/>. Acesso em: 2 mar. 2026.

[7] The story behind Photograph 51 | Feature from King’s College London. Disponível em: <https://www.kcl.ac.uk/the-story-behind-photograph-51>. Acesso em: 2 mar. 2026.

[8] DURKIN, Erin. DNA scientist James Watson stripped of honors over views on race. The Guardian, 13 jan. 2019. Disponível em: < https://www.theguardian.com/world/2019/jan/13/james-watson-scientist-honors-stripped-reprehensible-race-comments> . Acesso em: 2 mar.2026

[9] Nobel Prize in Chemistry 1997. Disponível em: <https://www.nobelprize.org/prizes/chemistry/1997/summary/>. Acesso em: 26 fev. 2026.

[10] Nobel Prize in Chemistry 2002. Disponível em: <https://www.nobelprize.org/prizes/chemistry/2002/summary/>. Acesso em: 2 mar. 2026.

[11] Nobel Prize in Chemistry 2024. Disponível em: <https://www.nobelprize.org/prizes/chemistry/2024/press-release/>. Acesso em: 2 mar. 2026.


 

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