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Bioinformática e Ciências Forenses

v.4, n.3, 2026
Março de 2026

Leonardo Maciel Santos Silva¹, Jakson Junio dos Santos¹, Anna Luiza Ferreira Vieira¹, Vinicius Marx S. Delgado², Antônio Pereira Ribeiro Arantes¹, Celso Judson Tadeu Batista Ferreira¹, João Vitor Expedito Nunes², Larissa Cristiane Souza Prote², Luana de Sousa Vicente¹, Vítor de Morais Santos¹, Luiz Guilherme Machado de Macedo³

¹ Estudantes da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ-CCO)

² Egressos da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ-CCO)

³ Professor da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ-CCO)

As diversas aplicações da Química, Farmácia e Bioquímica nas ciências forenses já foram discutidas previamente na edição 4 do "À Luz da Ciência" [1]. Além destas, a perícia também acompanhou a evolução de técnicas de sequenciamento genético, e diversas novas ferramentas estão disponíveis para uso do cientista forense, como a do DNA fingerprinting. A partir de vestígios de DNA, é possível identificar a passagem e envolvimento de indivíduos em um crime e o grau de parentesco entre os suspeitos e outros envolvidos. O presente texto aborda brevemente a técnica e traz alguns exemplos de uso da mesma no contexto da perícia criminal.

O DNA fingerprinting é uma técnica laboratorial frequentemente utilizada nas ciências forenses, para identificação de indivíduos com base em padrões únicos no DNA, sendo importantes em investigações criminais, em outras finalidades forenses e até em testes de paternidade [2]. Essa técnica explora regiões do genoma altamente variáveis, como os Short Tandem Repeats (STRs), que são as sequências curtas e repetitivas de nucleotídeos diferentes em cada ser humano, exceto em gêmeos idênticos [3].

A bioinformática nesse processo é importante, pois permite organizar, analisar, comparar e interpretar grandes quantidades de dados genéticos com uma maior precisão e agilidade, garantindo resultados mais confiáveis e reprodutíveis em análises forenses mais modernas.

O primeiro caso resolvido através de testes de DNA foi o assassinato de Lydia Mann, em 1983, e de Dawn Ashworth, que ocorreu 3 anos depois. A morte de ambas foi muito semelhante, tendo sido encontradas no caminho para casa. O primeiro suspeito preso foi Richard Buckland, que alegou ser responsável pelo falecimento de Ashworth, mas alegava nunca ter conhecido Lydia Mann. A polícia estava convicta da conexão entre ambos os casos, então foi buscar evidências que os correlaciona-se. Nesse momento, veio à tona a invenção de Alec Jeffreys [2,4].

O experimento de DNA comparando fluidos encontrados nos corpos da vítima com o DNA de Buckland provava que Richard era inocente! Isso levou a uma varredura completa de todos os homens que moravam na região, mas nenhum deles possuíam DNA que combinasse com o encontrado nas vítimas. A descoberta de Alec estava quase caindo em descrença quando a polícia recebeu um relato de alguém que foi pressionado por um homem chamado Colin Pitchfork a se apresentar na delegacia e fazer o teste de DNA no lugar dele. Quando Colin foi preso e teve seu DNA corretamente testado, o exame apontou que o DNA dele era idêntico ao encontrado nas duas vítimas!

No contexto forense, o perfil de DNA obtido a partir de uma amostra de uma cena de crime, pode ser comparado com o de indivíduos suspeitos ou com um software de banco de dados, como o Combined DNA Index System (CODIS), o que auxilia na exclusão ou inclusão de suspeitos e também auxilia nas resoluções de casos [5].

Os assassinatos de Lloyd Duane Bogle e Patrícia Kalitzke, ocorridos em 1956, permaneceram sem solução por mais de seis décadas, até serem elucidados em 2021 graças aos avanços da genealogia genética forense e da bioinformática. Tal fato teve grande repercussão, pois demonstrou o potencial da integração entre análise genética, bancos de dados genealógicos e ferramentas computacionais avançadas na perícia criminal moderna [6].

 

Mesmo a partir de material biológico antigo e altamente degradado, técnicas modernas de análise de DNA possibilitaram a construção de um perfil genético baseado em SNPs (polimorfismos de nucleotídeo único), que apresentam maior poder discriminatório do que os tradicionais marcadores STRs utilizados rotineiramente em perícias. O sequenciamento de alta capacidade gerou grandes volumes de dados genéticos, os quais foram processados e interpretados por algoritmos de bioinformática capazes de analisar simultaneamente milhares de marcadores.

 

A bioinformática teve papel central na comparação desse perfil com bancos de dados genealógicos públicos, permitindo a identificação de parentes distantes do autor do crime. A partir do cálculo computacional do grau de compartilhamento genético, foi possível inferir relações de parentesco e reconstruir árvores familiares complexas, reduzindo progressivamente o número de suspeitos. Esse processo culminou na identificação de Kenneth Gould como provável autor, posteriormente confirmada por comparações genéticas com familiares vivos. O caso evidencia a importância da bioinformática na transformação de dados genéticos em evidências forenses confiáveis [6].

 

No Brasil, o uso sistemático do DNA em investigações criminais começou com a atuação da Divisão de Pesquisa de DNA Forense da Polícia Civil do Distrito Federal, que passou a realizar esse tipo de exame de forma rotineira a partir de 1994. Com o passar dos anos, outros estados estruturaram laboratórios próprios voltados para análises genéticas aplicadas à perícia criminal, como Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Esse crescimento levou à criação da Rede Integrada de Bancos de Perfis Genéticos (RIBPG), que atualmente reúne diversos laboratórios estaduais, além da unidade da Polícia Federal, fortalecendo a padronização e o compartilhamento de dados no país [7].

 

A identificação por DNA ganhou grande destaque nacional em situações de grande impacto, especialmente em acidentes aéreos com múltiplas vítimas. Entre os casos mais marcantes estão o acidente de 2006 envolvendo um Boeing 737-800 da Gol e um jato executivo Legacy 600, que resultou na morte de 154 pessoas na região da Serra do Cachimbo, na Amazônia, e o acidente de 2007 com o Airbus A320 da TAM, em Congonhas, que vitimou todos os ocupantes da aeronave e pessoas em solo. Nessas tragédias, a análise genética foi essencial para possibilitar a identificação das vítimas, demonstrando a importância do DNA como ferramenta fundamental na perícia brasileira [7].

Um caso mais recente, e também de grande repercussão, no qual utilizou-se essa tecnologia foi no ataque aos prédios da praça dos três poderes no dia 08 de janeiro de 2023. Na ocasião, cerca de 1500 pessoas foram presas e as perícias realizadas no local permitiram a coleta de diversos itens, dentre eles óculos, lenços e produtos de maquiagem. A partir das análises dos materiais biológicos coletados foi possível identificar quem estava no local ou não, e assim, colaborar com as investigações [8].

Portanto, a incorporação do DNA fingerprinting e das ferramentas bioinformáticas à rotina pericial representou um grande avanço para as ciências forenses, ampliando a capacidade de identificar indivíduos, estabelecer vínculos genéticos e solucionar casos antigos ou recentes com maior segurança técnica. A consolidação de laboratórios especializados e a integração de bancos de perfis genéticos reforçam a importância dessa tecnologia no contexto investigativo, demonstrando que a análise de DNA se tornou um instrumento essencial para a produção de provas confiáveis e para o fortalecimento da justiça.

Referências Bibliográficas

[1] À LUZ DA CIÊNCIA. A ciência forense e sua importância na perícia criminal, v. 1, n. 4, dez. 2023.

[2] Lisa H. Chadwick. DNA FINGERPRITING. 2026. Disponível em: <https://www.genome.gov/genetics-glossary/DNA-Fingerprinting>. Acesso em: 05 mar. 2026.

[3] DNA fingerprinting genetics. 2026 Disponível em: <https://www.britannica.com/science/DNA-fingerprinting>. Acesso em: 05 mar. 2026.

[4] PATEL, Aman. When was the first criminal caught using DNA evidence? 2023 Disponível em: <https://www.thetech.org/ask-a-geneticist/articles/2023/first-criminal-caught-using-dna-evidence/>. Acesso em: 05 mar. 2026.

[5] Biometrics and Fingerprints. Disponível em: <https://le.fbi.gov/science-and-lab/biometrics-and-fingerprints/codis-2>. Acesso em: 05 mar. 2026.

[6] BLORE, Jocelyn. 10 COLD CASES SOLVED. 2026 Disponível em: <https://www.forensicscolleges.com/blog/resources/10-cold-cases-solved>. Acesso em: 05 mar. 2026.

[7] REVISTA CRIMINALÍSTICA E MEDICINA LEGAL. 1. ed. Belo Horizonte: Valor Editora, 2019. v. Acesso em: 05 mar. 2026.

[8] MAIA, Elijonas. DNA do crime: Saliva e cabelo já solucionaram casos famosos; relembre. 2025. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/brasil/dna-do-crime-saliva-e-cabelo-ja-solucionaram-casos-famosos-relembre/>. Acesso em: 05 mar. 2026.

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